quarta-feira, 20 de julho de 2022

Quilombos pelo Brasil: Identidade e Resistência. Cultura Quilombola em sala de aula.

 Hello Bloggers!!!

Como vocês estão?

    Hoje trago pra vocês uma breve pesquisa que busca evidenciar a luta das comunidades quilombolas, suas práticas culturais decisivas para a construção de sua identidade e permanência. E aqui, explanarei sobre a importância de se trabalhar a culturas africanas em sala de aula, e como podemos usar os Quilombos como exemplo de organização política, social e cultural. 


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"Quilombo, O eldorado negro". Esse é o título da canção composta por Gilberto Gil em homenagem aos quilombos. A referência à riqueza dessas comunidades não é gratuita. Embora pesem as dificuldades financeiras e econômicas, as populações quilombolas guardam valiosos patrimônios: conhecimentos de plantas medicinais, técnicas produtivas de agricultura familiar, registro oral da história de povos negros do Brasil e uma enorme efervescência cultural que abrange a culinária, os cantos, os cultos, as festas e diversos outros tipos de manifestações.

O quilombo surge como forma de resistência ao sistema escravista implantado no Brasil com a colonização da América e da constituição do sistema mundo moderno-colonial. O quilombo é considerado um dos principais símbolos de luta pela liberdade, contra o cativeiro e a repressão sofrida durante o regime escravista brasileiro. Por isso, a palavra Quilombo se tornou sinônimo de resistência.

Durante a diáspora, o translado foi em condições desumanas como também a introdução dos negros africanos em solo brasileiro. Junto com sua força física esses africanos traziam para o Brasil também conhecimentos, tecnologias, culturas e valores, que por sua vez tiveram de ser desconstruídos e reconstruídos durante a estadia no território brasileiro, formando uma nova identidade que viemos a conhecer como quilombos. E pra falarmos de Quilombo como uma característica singular do povo negro, faz-se necessário aqui resgatar a etimologia da palavra. Segundo Munanga:

A palavra quilombo tem a conotação de uma associação de homens, aberta a todos sem distinção de filiação a qualquer linhagem, na qual os membros eram submetidos a dramáticos rituais de iniciação que os retiravam do âmbito protetor de suas linhagens e os integravam como co-guerreiros num regimento de super-homens invulneráveis às armas de inimigos. (MUNANGA, 1996, p.60).

A palavra kilombo segundo Kabengele Munanga (1996) tem origem nos povos de línguas bantu, que ao ser aportuguesado teve sua grafia transformada: quilombo. São civilizações que surgem por emigração de povos de diferentes regiões como Zaire e Angola, resultando na miscigenação que de acordo Munanga (1996), caracteriza todos os povos ao sul da floresta equatorial, de onde se originou o modelo de quilombo. Nas palavras de Munanga (1996):

Sua presença e seu significado no Brasil têm a ver com alguns ramos desses povos bantu cujos membros foram trazidos e escravizados nesta terra. Tratas-se dos grupos lunda, ovimbundu, bundu, kongo, imbangala, etc., cujos territórios se dividem entre Angola e Zaire. (MUNANGA, 1996, p.58).

O conceito de quilombo no Brasil surge em sinônimo de luta pela liberdade, resistência e oposição ao sistema opressor escravista. Em consequência disso o quilombo é associado ao sentido de lugar. É dentro desse contexto histórico que surgem os primeiros quilombos brasileiros. Como Munanga (1996 p. 63) completa dizendo: “apesar de o quilombo ser um modelo bantu, creio eu que, ao unir africanos de outras áreas culturais e outros descontentes não-africanos, ele teria recebido influências diversas, daí seu caráter transcultural”. Portanto o quilombo alcança sua configuração por meio do agrupamento tanto dos povos africanos como também outros povos, pobres, sem distinção de raça, etnia ou cultura.

Comunidades que nascem a partir do resgate de suas raízes, suas crenças, sua cultura e sua história, buscando através de suas ancestralidades e culturas resgatar suas origens nas matas, recriando seu espaço na construção de seu próprio território, conquistado ora por confrontos ora pelo sigilo. 


Segundo o levantamento do IBGE em 2019, existem quantos Quilombos no Brasil?

Um estudo realizado pela Base de Informações Geográficas e Estatísticas sobre os Indígenas e Quilombolas do IBGE estima que em 2019 existiam 5.972 localidades quilombolas no Brasil. A pesquisa foi feita a partir da base territorial do próximo Censo e do Censo 2010.

A população que se considera quilombola será identificada pela primeira vez no próximo Censo. O IBGE não tem uma estimativa dessa população mas calcula que o Brasil possua 5.972 localidades quilombolas, divididas em 1.672 municípios brasileiros. Isso representa mais que o dobro do número de localidades indígenas (827).

Das 5.972 localidades, 404 são territórios oficialmente reconhecidos, 2.308 são denominados agrupamentos quilombolas e 3.260 são identificados como outras localidades quilombolas. Entre os agrupamentos, 709 estão localizados dentro dos territórios quilombolas oficialmente delimitados e 1.599 estão fora dessas terras.

O Nordeste é a região do Brasil que concentra o maior número de localidades quilombolas, 3.171. Logo em seguida vem a região Sudeste com 1.359 quilombos. As demais regiões têm os menores números: Norte (873), Sul (319) e Centro-Oeste (250). É no Nordeste também que está localizado o maior número de territórios quilombolas oficialmente reconhecidos (176). Mas é no estado do Pará, na região Norte, que está a maioria das localidades com delimitação oficial (75).

Essa é a primeira estimativa de dados quilombolas produzida pelo IBGE e, devido aos dados estarem em fase de consolidação, estes estão sujeitos a revisões até o próximo Censo. Consequentemente, os dados atualizados sobre os contingentes dessas populações só serão, de fato, conhecidos após a realização do próximo Censo.


Como é o processo para a titulação de terras quilombolas no Brasil?

Consagrado na Constituição Brasileira de 1988, o direito à terra das populações quilombolas ainda enfrenta a burocracia e a morosidade. A luta pela demarcação do seu território é, para estes povos, uma questão crucial: só dessa forma podem preservar com segurança sua cultura e seu modo de vida. Nesse sentido podemos entender quilombo de duas maneiras, o quilombo antigo ou quilombo histórico, anterior a abolição e o quilombo contemporâneo legalmente reconhecido pós-promulgação da Constituição Federal de 1988.

  O reconhecimento de uma comunidade como quilombola ocorre por meio do processo de auto declaração, assim como das pessoas que pertencem àquele grupo. Esse critério segue a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que trata sobre povos indígenas e tribais. Para o reconhecimento desses territórios, é necessário que os grupos passem por um criterioso processo de análise e, assim, recebam a titulação das terras. 

Na esfera federal, o órgão responsável pela realização desse título é o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra)Para empreenderem a abertura do processo, as comunidades devem possuir uma certidão de registro no Cadastro Geral de Comunidades Remanescentes de Quilombos da Fundação Cultural Palmares. O Incra realiza um estudo do território para elaboração do Relatório Técnico e Delimitação (RTID), formado pelo relatório antropológico, pelo levantamento fundiário, pela elaboração de mapa territorial e pelo cadastramento das famílias. Após isso, o documento passa por uma fase em que são analisadas e julgadas contestações que podem ter sido feitas. 

O RTID também é encaminhado para diferentes órgãos – Fundação Cultural Palmares, IPHAN, SPU, FUNAI, Conselho de Defesa Nacional, Serviço Florestal Brasileiro, IBAMA, Instituto Chico Mendes e os órgãos ambientais estaduais – para avaliação dos dados levantados. Com a aprovação definitiva dos estudos realizados, o presidente do Incra publica uma portaria no Diário Oficial da União e do Estado, encerrando o processo com a titulação do território quilombola. 


Qual é a atual situação das comunidades quilombolas no Brasil?

Mesmo sendo um direito constitucional, a titulação das terras tem sido cada vez mais lenta. De acordo com o Observatório de Terras Quilombolas da Comissão Pró-índio de São Paulo, atualmente apenas 199 terras quilombolas foram tituladas no Brasil, sendo 13 delas pelo Incra. Alguns dos fatores apontados como motivos para a lentidão dessa declaração são a burocracia existente e as disputas pelo território, além da redução do orçamento do Incra nos últimos anos e a falta de interesse governamental pela promoção desta política nacional.

Além de ser imprescindível para assegurar os direitos dessas comunidades em seus locais de memória e identidade, o processo de reconhecimento das terras quilombolas também possibilita que estas populações tenham acessos a serviços básicos, como distribuição de água e energia elétrica regularizadas. Com a titulação, também é possível que a comunidade acesse políticas públicas que visam proporcionar uma melhor qualidade de vida aos moradores, como a bolsa permanência destinada à universitários quilombolas e financiamentos bancários para atividades agrícolas.


Apagamento histórico do negro no Brasil em livros didáticos.

Com a abolição da escravatura em 1888 instaurou-se uma ilusão de que juntamente com a escravização acabaria também a negação de direitos e a inferiorização desses povos, dessa forma o quilombo é esquecido principalmente pelas instituições oficiais do Estado brasileiro. Entende-se que a abolição foi uma conquista para o povo negro no Brasil, por outro lado, esta causou um apagamento histórico das comunidades quilombolas existentes.

Rafael Sanzio dos Anjos (2004), afirma que existiu um apagamento histórico do negro no Brasil o qual pode ser identificado principalmente nos livros didáticos, que inicialmente apresenta o negro como escravos sem história, e posteriormente apaga a imagem dos negros aquilombados pós-abolição, o que agravou ainda mais a negação de direitos já existentes. Segundo Anjos (2004), isso faz parte de uma estratégia proposital do que ele chama de branqueamento da população brasileira com o objetivo de incorporar a ideia de democracia racial à sociedade brasileira.

Em consequência dessa invisibilidade, as comunidades quilombolas se incorporam e se destacam em diversos movimentos sociais ao longo de toda história em busca do direito à terra. Assim, “Inaugura uma espécie de demanda, ou nova pauta na política nacional: afrodescendentes, partidos políticos, cientistas e militantes são chamados a definir o que vem a ser o quilombo e quem são os quilombolas.”. (LEITE, 2000, p. 332).

Sabemos que é de grande importância para a ciência geográfica o estudo dos agentes e sujeitos sociais, assim como as transformações que permeiam os processos de construção de uma sociedade. Nesse sentido visto que há uma necessidade de tentar reparar 300 anos de escravidão no Brasil, as discussões sobre quilombo tem uma grande importância, para entendermos a dívida que temos com essa parcela da população brasileira. 


Como abordar as comunidades quilombolas e sua cultura em sala de aula?

Depois da abolição da escravatura, surge o primeiro desafio, uma educação que tenha como pressuposto a inclusão da história dos negros descendentes de escravos, levando em conta uma perspectiva de um currículo escolar com a estruturação sociocultural, utilizando, também, materiais didáticos próprios e contando com a participação da comunidade quilombola.


A educação quilombola busca um projeto que trate das suas manifestações, de suas lutas e conquistas, para trazer para o contexto escolar a cultura de uma população que tem tantas histórias, pensar numa forma que envolvam de maneira ampla os conteúdos escolares de uma escola quilombola. (SILVA, 2011, p. 03).

Tendo como referência a Lei Federal 10.639/033, que alterou os dispositivos da LDB - Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional, tornando obrigatório o ensino da História e cultura afro- brasileira e africana nos estabelecimentos de ensino da educação básica, sejam eles públicos ou privados. Conforme Nunes (2006), uma das formas de proporcionar inclusão educacional escolar aos alunos remanescentes quilombolas é efetivar nas escolas o que determina a Lei 10.639/2003. 


A partir disso, almeja-se que se intensifique nas escolas um processo de inclusão educacional escolar da população negra, pois em muitas comunidades rurais remanescentes quilombolas não existem escolas específicas, em que a cultura quilombola seja valorizada e preservada.

Estórias, lendas, costumes, hábitos alimentares, padrões e formas de sociabilidade. Esses são alguns dos elementos que podem te guiar no desenvolvimento de instrumentos metodológicos, didáticos e pedagógicos que poderão ser utilizados em sala de aula, em forma de projetos de extensão ou transversais aos conteúdos pragmáticos. 

Refletir sobre educação e comunidades quilombolas é discutir a resistência, cultura e tradição, compartilhadas para além de um espaço social, mas a partir de um grupo que resiste ao sistema escravocrata, com suas dimensões sobre o uso da terra e do seu próprio modo de vida.


Aqui deixo uma reflexão: SABENDO QUE, ESSAS MILHARES DE COMUNIDADES EXISTENTES NO PAÍS POSSUEM COSTUMES HERDADOS DE SEUS ANTEPASSADOS, MAS TAMBÉM PASSARAM POR MUDANÇAS, ASSIM COMO TODA SOCIEDADE COM A EVOLUÇÃO DO TEMPO, E QUE CADA UMA DELAS POSSUEM DIFERENTES ASPECTOS CULTURAIS, DESDE A FORMA DE ECONOMIA LOCAL ATÉ A RELIGIOSIDADE. 

A GARANTIA DOS DIREITOS DESSAS POPULAÇÕES E O RECONHECIMENTO DE SUAS TRADIÇÕES SÃO PRIMORDIAIS PARA A PRESERVAÇÃO DO MULTICULTURALISMO E DA HISTÓRIA DO PAÍS, CABE A NÓS, PROFESSORES, PROPORCIONARMOS UMA EDUCAÇÃO ONDE OS ALUNOS TENHAM ACESSO A DIFERENTES CULTURAS, DE FORMA, QUE O ENTENDIMENTO DO “OUTRO” NÃO SEJA VISTO COMO INFERIOR OU MENOS RELEVANTE.


Obrigada e bom café.



* Para completar a discussão ouça o Podcast criado pela nossa colaboradora Thalia Fernandes: "Julho das Pretas: Movimento inspirado por Tereza de Benguela."

https://soundcloud.com/camila-geissler-476096965/julho-das-pretas-movimento-inspirado-por-tereza-de-benguela?si=d33ab78633854b65afea1edc880a920a&utm_source=clipboard&utm_medium=text&utm_campaign=social_sharing

 

* LINK DA AGENDA DO EVENTO:

https://institutoodara.org.br/esta-no-ar-a-agenda-de-atividades-da-10a-edicao-do-julho-das-pretas-mulheres-negras-no-poder-construindo-o-bem-viver/



* Referências Bibliográficas:

ANJOS, Rafael Sanzio Araújo dos. Cartografia e Cultura: Territórios dos remanescentes de quilombos no Brasil. VIII Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais. 2004.


BATISTA, Alicia de Oliveira. Conheça o processo para a titulação de terras quilombolas no Brasil. Politize!, 28 set. 2021. Disponível em: https://www.politize.com.br/automatico-titulacao-de-terras-quilombolas-no-brasil/


BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988.

   

BRASIL, Lei nº10639 de 9 de janeiro de 2003. Ministério da Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnicos Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana. MEC/SECAD. 2005.

  

CAMPOS, Paulo Fernando de Souza. O ensino, a História e a Lei 10.639. História & Ensino. Londrina, 2004.

  

DIREITOS Quilombolas. Comissão Pró-Índio de São Paulo. Disponível em: https://cpisp.org.br/direitosquilombolas/. Acesso em: 20 jul. 2022.

  

GILBERTO GIL. Quilombo, O Eldorado Negro. 1884 (4:47min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=O5bMIal00fQ


  

LEITE, Ilka Boaventura. Os quilombos no Brasil: Questões Conceituais e Normativas. Etnográfica, Lisboa, v. IV, n. 2, p. 333-354, 2000.

  

MUNANGA, Kabengele. Origem e Histórico do Quilombo na África. In: Revista USP, n.28, São Paulo, EDUSP, 1996, p. 56-63.

 

NUNES, G. H. L. N. Educação Quilombola. In: MEC. Orientações e Ações para a Educação das Relações Étnico-Raciais. Brasília: SECAD, 2006.


SILVA, G. M. Currículo Escolar: identidade e Educação Quilombola. Cadernos ANPAE, v. 11, p. 1 - 4, 2011.