domingo, 4 de dezembro de 2022

Terras indígenas no Paraná: Qual a importância de abordar a cultura indígena na escola?

  Hello Bloggers!!!

Como vocês estão?

    Meu nome é Camila Geissler e sou criadora do blog Café com História! Hoje trago pra vocês uma breve pesquisa referente aos povos indígenas existentes no Paraná buscando desmistificar e refletir sobre a trajetória histórica das relações entre os povos indígenas e os não indígenas ocorridas nessa região. Na tentativa de auxiliar os professores na reflexão sobre a maneira como têm abordado os conteúdos relacionados à História e Cultura Indígena e na importância de cada um dos profissionais da educação no ensino, na divulgação e valorização da cultura, valores, costumes e saberes dos povos indígenas.


PEGUEM SUAS XÍCARAS DE CAFÉ E VENHAM COMIGO!!!

Homenagem feita pelo Google à ativista brasileira Rosane Kaingang, que foi uma das principais líderes indígenas do Sul do País, no dia 02 de Junho de 2022.

    Conforme dados censitários de 2010, existem atualmente, no estado do Paraná, cerca de vinte e cinco mil, novecentos e quinze índios das etnias Kaingaing, Guarani e Xetá, vivendo em 27 terras indígenas demarcadas.

    A economia dessas comunidades baseia-se na roça de subsistência, pomares, criação de ovinos e suínos. Para complementar a renda, produzem e vendem artesanato como cestos, balaios, arcos e flechas. Alguns indígenas atuam como professores alfabetizadores, intérpretes ou no ensino das línguas Guarani ou Kaingang, o que contribui com a valorização dos conhecimentos tradicionais e com a preservação da identidade cultural.


O cacique

    Atualmente, em cada terra indígena do Paraná existe um cacique, “eleito” ou indicado pelo grupo para exercer a autoridade política e fazer contatos e negociações com as autoridades da sociedade não indígena. Na escolha do cacique, considera-se a tradição, a hereditariedade, a experiência e o prestígio conquistado pela família, bem como a participação histórica desta, na liderança do grupo. O cacique deve promover a distribuição de responsabilidades entre os membros sob sua liderança, organizar a representação da comunidade nos processos de tomada de decisão, manter os mecanismos de controle social, além de atuar como conselheiro.

    O cacique tem autoridade para representar a comunidade em negociações com outras instituições, em reuniões com membros do poder público, na tomada de decisões, autenticação de documentos, negociação de projetos, recebimento de verbas, organização de festas, nomeação para cargos, organização de grupos de trabalho, resolução de conflitos familiares, aconselhamento e imposição de penalidades aos infratores das normas e regras da organização social do grupo.

    Não há remuneração para a função de cacique. Seu trabalho é voluntário, seu poder e prestígio é medido pela capacidade de conseguir bens e serviços para o grupo.

CURIOSIDADE:

Em 2017, na Terra Indígena Tupá Nhé É Kretã - Morretes, o cacicado era exercido por uma mulher indígena da etnia Guarani.

 

MAI - Museu de Arte Indígena em Curitiba.
O artesanato 

    No passado a cestaria era feita para atender as necessidades internas, tendo apenas valor de uso. O contato com sociedade não indígena trouxe a dependência econômica, e esta atividade adquiriu também o valor de troca. Os lucros obtidos com a venda do artesanato são utilizados para aquisição de gêneros alimentícios e eletrodoméstico, entre outros.


Os Kaingang

Indígena Kretã Kaingang - Greenpeace Brasil
    Os Kaingang preferiam habitar as regiões de campos e florestas de Araucária angustifólia e tinham no pinhão sua principal fonte de subsistência. Decorridos 500 anos de contato com os não indígenas, os Kaingang preservam o idioma, batizam os filhos com nomes indígenas e raramente utilizam a pintura corporal.

    É possível observar que, no interior de uma comunidade da mesma etnia, existem diferenças na organização social e política. Pesquisadores afirmam que as atividades cotidianas como o tipo de agricultura, a caça, a cestaria, o cuidado com as crianças, a itinerância entre as áreas indígenas, a presença de casas de fogo onde vivem os mais velhos, são marcadas por distintivos étnicos.

    Os Kaingang acreditam que as plantas têm inspiração, vida e poder de cura. Dizem que quando uma criança nasce, recebe uma alma que dá vida ao corpo, mas como seu espírito é fraco, precisa de cuidados e banhos com ervas a fim de fortalecer a fixação desse espírito.

    Entre os Kaingang, a posse da terra é coletiva, todos usufruem dos produtos plantados e colhidos nas roças. Toda a comunidade, inclusive as crianças, participa ativamente das plantações. Os homens e meninos são responsáveis pelas roçadas, limpeza do terreno, empilhamento, queima, plantio, capina e colheita. No cultivo da mandioca os homens vão abrindo as covas, as mulheres colocam ramas e as crianças cobrem os buracos. O plantio de batata-doce e de abóbora é de responsabilidade das mulheres e das crianças. Na roça, as mulheres cuidam dos filhos pequenos e cozinham, enquanto os homens estão trabalhando.


Os Guarani

    Antes da colonização, os Guarani distribuíam-se desde o litoral até o planalto paranaense. Estabeleciam-se em regiões de floresta tropical e usavam áreas próximas para caça, coleta e agricultura. Permaneciam, em torno de cinco a seis anos no mesmo local, até esgotarem os recursos naturais, e retornavam após o restabelecimento da terra.

    Normalmente a aldeia era composta por cinco ou seis casas comunitárias, sem divisões internas, onde viviam cerca de trinta pessoas, em cada. No interior das habitações e nas áreas periféricas da aldeia concentravam-se as atividades das mulheres. No centro da aldeia existia a casa de reza, onde eram realizados os rituais religiosos.

Indígenas Guaranis residentes no Oeste do Paraná.

   Produziam cerâmica, redes e cestas de fibras e de taquara e fiavam algodão para confecção de roupas. Ainda hoje os Guarani mantêm laços de parentesco e afinidade com aldeias distantes e preservam a língua e a cultura. Algumas comunidades indígenas Guarani do Paraná não falam mais a língua materna, nem praticam a religião tradicional. 

    Entre os Guarani também existem diferenças na estrutura linguística, costumes, rituais, organização política e social, orientação religiosa, interpretação da realidade e modo de interagir. Portanto, é necessário observar que cada grupo tem suas particularidades.

   Entre os Guarani a figura do xamã (sacerdote, rezador, curador, txeru ou pajé) é importantíssima. Estes se formam pela inspiração, aprendizagem, iniciação, e, principalmente, pela revelação divina que acontece quando há a devoção. Após o contato com a sociedade não indígena, os xamãs passam a ser responsáveis pela religião, enquanto os caciques e lideranças cuidam da política e demais atividades.

    Os Guarani acreditam que Nhanderu (Deus) os fez especialmente para cantar e dançar. A música, o cantar, o executar dos instrumentos tem caráter invocatório e tem o papel de atingir a escuta dos deuses. Por meio do convívio familiar, de jogos e exemplos, a criança Guarani aprende a conhecer e distinguir os comportamentos considerados adequados dos desaprovados pelo grupo.


Os Xetá

    Desde o final do século XIX, existem relatos sobre indígenas, denominados Xetá, no centro sul do Paraná, Este grupo indígena foi oficialmente contatado pelo Serviço de Proteção aos Índios, atual FUNAI, na região da Serra dos Dourados no noroeste do Paraná, na década de 1950. Pesquisadores contaram 60 indivíduos Xetá quando realizaram estudos linguísticos sobre a cultura e a língua dessa etnia. Estudos mais recentes constataram que a situação social e econômica vivenciada pelos Xetá naquele momento, justificava-se pelos constantes deslocamentos do grupo, provocados pela expansão cafeeira.

Kozác, bem velhinho, ao lado de um indígena
Xetá. Acervo do Museu Paranaense.

    O pesquisador tcheco Vladimir Kozák documentou em detalhes o cotidiano destes povos por meio de filmes, fotografias, pinturas em tela e desenhos, além de produzir textos e coletar objetos, que formam o acervo do Museu Paranaense e do Museu de Arqueologia e Etnologia da UFPR.

    A organização social da comunidade Xetá baseia-se no sistema de parentesco e na divisão sexual do trabalho. Algumas atividades são exercidas exclusivamente pelos homens como: caça construção de habitações e armadilhas, produção de instrumentos, além da segurança e defesa do território. Os meninos Xetá desde muito cedo aprendem com os pais as atividades consideradas masculinas, principalmente o manejo do arco e flecha. São consideradas atribuições femininas: preparo do alimento, transporte de carga e do alimento e cuidado com seus filhos. A coleta, tecelagem e cestaria são atribuições exercidas por ambos os sexos.

    A subsistência dos Xetá era garantida por meio da caça e da coleta. Sua dieta alimentar baseava-se principalmente em produtos disponíveis durante o ano todo, como cocos de palmeiras, frutos e mel de abelhas silvestres. Entre os alimentos constavam diversas espécies de tubérculos, fungos de árvores, frutos silvestres, banana, jacaratiá, jabuticaba, gabiroba, pitanga. Também faziam parte da dieta Xetá algumas espécies de insetos, besouros, pirilampos e larvas de troncos de palmeiras. Estas iguarias são consumidas até hoje, após serem tostadas sobre a brasa.

Chefe Xetá capturado por Bigg-Wither nas serras próximas
ao Salto da Ariranha no rio Ivaí no dia 17 de agosto de 1873.
Fonte: Bigg-Wither (1878).

    Os Xetá caçam ou capturam diversas espécies de répteis, mamíferos e aves. Entre os animais caçados, destacam-se a queixada, o caititu, os macacos e aves, como o tucano, arara jacu e mutum. Nas armadilhas apreendem o tatu, a cotia, a lontra, o quati, o tamanduá, a jaguatirica, os preás, as antas e as onças, além de cágados, lagartos e cobras.

    Os Xetá apreciam a companhia de animais, que costumam criar, como gaviões, corujas, morcegos, aves, borboletas, cigarras e besouros. Na terapêutica tradicional, os Xetá utilizam folhas de erva-mate misturadas com água, a qual é empregada como unguento ou loção refrescante na cura de dores musculares, febre, ferimentos e eczemas. Para curar dores de estômago, fricciona-se o abdômen com as patas das onças, doenças de pele são tratadas com cinzas de pele de onça, friccionadas sobre o rosto ou corpo do paciente. 

     Contra picadas de cobra, aplicam três torniquetes no membro picado, geralmente a perna. A seguir, uma série de procedimentos são executados sobre o local da picada: banho com kukuay (folhas de erva-mate defumadas e secas, socadas no pilão e ingeridas com água) e suco de palmito, esfregação com cinzas de onça queimado, abanação com pele de onça ou com gavião vivo.


Por que é importante estudar a cultura dos povos indígenas nas escolas?

    Essa pergunta é muito importante e levanta diversas questões que passam despercebidas no cotidiano. Na grande maioria das escolas do país, no dia 19 de abril se comemora o Dia do Índio, que foi escolhido a partir do Primeiro Congresso Indigenista Interamericano em 1940 (FUNAI 2011, MEC 2020). Mas para a grande maioria das crianças, comemorar esse dia não é didático e palpável, já que acreditam que esses povos estão vivendo apenas em regiões distantes, em florestas no Norte e Nordeste do país, pensamento construído a partir de estereótipos. Esse imaginário não fica restrito apenas às crianças e acaba se tornando um senso comum.

    A valorização dos povos indígenas desde a pré-escola enriquece a visão das famílias trazendo debates sobre preservação ambiental, cultura, educação, valores e respeito às diferenças. Também é importante resgatar a história dos primeiros habitantes do território brasileiro, que muito contribuíram para a cultura atual do país. Os saberes e a cultura tradicional são de suma importância na formação da sociedade brasileira e o contato com esses povos pode gerar um resgate do conhecimento que detêm. Além disso, reafirmar a herança cultural indígena é relevante para reduzir os impactos negativos sobre essas comunidades. 


    Cabe destacar que os povos indígenas são especialmente vulneráveis onde ocorrem em menor número e nas regiões mais urbanizadas e industrializadas, caso das regiões Sudeste e Sul do Brasil. Assim, a cultura dessas populações minoritárias está ameaçada (Observatório do Terceiro Setor 2017, ONU 2017). Com isso, importantes conhecimentos tradicionais podem ser perdidos e uma parcela relevante da identidade cultural brasileira pode ser esquecida.

    Os povos indígenas possuem conhecimentos acerca dos bens naturais e dos processos ecológicos que proporcionam condições para realizar atividades em consonância com a conservação ambiental. Nesse sentido, é possível dizer, que a aproximação entre esses povos e os cidadãos em geral, pode servir como uma oportunidade para conscientizar a população sobre a relação harmoniosa e equilibrada que os indígenas possuem com o meio ambiente, proporcionando trocas de saberes. A divulgação da cultura indígena pode sensibilizar a população para a importância de viver de forma sustentável e, assim, utilizar práticas conservacionistas e transmitir para as futuras gerações o conhecimento adquirido por esses povos. 

    A valorização da cultura indígena é um dever de todos os países do mundo. Nesse sentido, a UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, indica que o conhecimento adquirido pelos povos indígenas são úteis para o desenvolvimento sustentável, pois afirma que “o respeito aos conhecimentos, às culturas e às práticas tradicionais indígenas contribui para o desenvolvimento sustentável e equitativo e para a gestão adequada do meio ambiente’’ (FUNAI 2008, UNESCO 2020, São Paulo 2020).


    Aqui deixo uma reflexão: O PROCESSO DE PERDA TERRITORIAL E CONSEQUENTE CONFINAMENTO EM ESPAÇOS EXÍGUOS PELOS INDÍGENAS, IMPÔS PROFUNDAS LIMITAÇÕES À SUA ECONOMIA E ASPECTOS FUNDAMENTAIS DE SUA POLÍTICA E CULTURA. ABORDAR A QUESTÃO DAS TERRAS INDÍGENAS NO BRASIL É TRAZER A PÚBLICO A SITUAÇÃO DESSE POVO, PORTANTO, NÃO CABERIA AOS EDUCADORES AS REFLEXÕES QUE CULMINEM EM PRÁTICAS PEDAGÓGICAS? MAIS ESPECIFICAMENTE NO TRATO DIDÁTICO COM OS CONTEÚDOS RELACIONADOS A HISTÓRIA E CULTURA INDÍGENA, E QUE SEJA FEITO NUMA ABORDAGEM QUE POSSIBILITE À COMUNIDADE ESCOLAR COMPREENDER E VALORIZAR A PRESENÇA E A INFLUÊNCIA DOS INDÍGENAS NO MODO DE VIDA, DE ONTEM E DE HOJE, DOS BRASILEIROS?


Obrigada e bom café.


* Para completar a discussão ouça o podcast idealizado pela criadora desse blog Camila Geissler sobre o uso corriqueiro da palavra ÍNDIO ao dirigir-se a alguma etnia indígena: "índio é genérico!".

https://soundcloud.com/camila-geissler-476096965/indio-e-generico?ref=whatsapp&p=i&c=1&si=E84625EDF3C94860B0182A18AEACAEF9&utm_source=whatsapp&utm_medium=message&utm_campaign=social_sharing


* Referências Bibliográficas:

FREIRE, José Ribamar Bessa. Cinco ideais equivocadas sobre os índios. In: Educação, cultura e relações interétnicas/Ahyas Siss, Aloisio Jorge de Jesus Monteiro (orgs.);

AMPARO Villa Cupolillo.[et al.]- Rio de Janeiro: Quartet: EDUR, 2009. Agora são outros 500. (Texto base da Semana dos povos indígenas). In: Brasília: CIMI-CNBB, 1998.

BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Referencial curricular nacional para as escolas indígenas. Secretaria de Educação Fundamental.- Brasília: MEC/SEF, 1998.

BANIWA, Gersem. O índio brasileiro: o que você precisa saber sobre os povos indígenas no Brasil de hoje. Brasília, MEC/SECAD/LACED/Museu Nacional, 2006.

MOTA, Lúcio Tadeu. Os Xetá no vale do rio Ivaí 1840-1920. Maringá: Universidade Estadual de Maringá, 2013, 209 págs.


* Sites: 

FUNAI – Fundação Nacional do Índio (2020a). Quem são. Disponível em: https://www.gov.br/funai/pt-br/atuacao/povos-indigenas/quem-sao Acesso em: 01 de dez. de 2022.

FUNAI – Fundação Nacional do Índio – Direitos Sociais (2020). Disponível em: https://www.gov.br/funai/pt-br/atuacao/povos-indigenas/direitos-sociais Acesso em: 01 de dez. de 2022.

FUNAI – Legislação Indigenista (2008) Disponível em: https://www.gov.br/funai/pt-br/acesso-a-informacao/legislacao Acesso em: 02 de dez. de 2022.

IEPÉ – Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (2020) Educação e Valorização Cultural. Disponível: https://editorarealize.com.br/editora/anais/conedu/2020/TRABALHO_EV140_MD1_SA11_ID3627_29092020193759.pdf Acesso em: 03 de dez. de 2022.

IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2020) Indígenas. Disponível em: https://indigenas.ibge.gov.br/ Acesso em: 03 de dez. de 2022.

MEC – Ministério da Educação (2020) Dia do Índio. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/component/tags/tag/42671-dia-do-indio Acesso em: 04 de dez. de 2022.

ONU – Organização das Nações Unidas (2017)  Disponível em: https://nacoesunidas.org/em-marica-rj-tribo-usa-idioma-guarani-para-fortalecer-cultura-indigena/ Acesso em: 04 de dez. de 2022.

Pensamento Verde (2013) Disponível em: https://www.pensamentoverde.com.br/meio-ambiente/indios-convivem-natureza-licoes-vida-sustentavel/ Acesso em: 04 de dez. de 2022.