Hello Bloggers!!!
Como vocês estão?
Meu nome é Camila Geissler e sou criadora do blog Café com História! Hoje trago pra vocês uma breve pesquisa referente aos povos indígenas existentes no Paraná buscando desmistificar e refletir sobre a trajetória histórica das relações entre os povos indígenas e os não indígenas ocorridas nessa região. Na tentativa de auxiliar os professores na reflexão sobre a maneira como têm abordado os conteúdos relacionados à História e Cultura Indígena e na importância de cada um dos profissionais da educação no ensino, na divulgação e valorização da cultura, valores, costumes e saberes dos povos indígenas.
PEGUEM SUAS XÍCARAS DE CAFÉ E VENHAM COMIGO!!!
| Homenagem feita pelo Google à ativista brasileira Rosane Kaingang, que foi uma das principais líderes indígenas do Sul do País, no dia 02 de Junho de 2022. |
Conforme dados censitários de
2010, existem atualmente, no estado do Paraná, cerca de vinte e cinco mil,
novecentos e quinze índios das etnias Kaingaing, Guarani e Xetá, vivendo em 27
terras indígenas demarcadas.
A economia dessas comunidades baseia-se na roça de subsistência, pomares, criação de ovinos e suínos. Para complementar a renda, produzem e vendem artesanato como cestos, balaios, arcos e flechas. Alguns indígenas atuam como professores alfabetizadores, intérpretes ou no ensino das línguas Guarani ou Kaingang, o que contribui com a valorização dos conhecimentos tradicionais e com a preservação da identidade cultural.
O cacique
Atualmente, em cada terra
indígena do Paraná existe um cacique, “eleito” ou indicado pelo grupo para
exercer a autoridade política e fazer contatos e negociações com as autoridades
da sociedade não indígena. Na escolha do cacique, considera-se a tradição, a
hereditariedade, a experiência e o prestígio conquistado pela família, bem como
a participação histórica desta, na liderança do grupo. O cacique deve promover
a distribuição de responsabilidades entre os membros sob sua liderança,
organizar a representação da comunidade nos processos de tomada de decisão, manter
os mecanismos de controle social, além de atuar como conselheiro.
O cacique tem autoridade para
representar a comunidade em negociações com outras instituições, em reuniões
com membros do poder público, na tomada de decisões, autenticação de documentos,
negociação de projetos, recebimento de verbas, organização de festas, nomeação para cargos, organização de grupos
de trabalho, resolução de conflitos familiares, aconselhamento e imposição de penalidades
aos infratores das normas e regras da organização social do grupo.
Não há remuneração para a função de cacique. Seu trabalho é voluntário, seu poder e prestígio é medido pela capacidade de conseguir bens e serviços para o grupo.
CURIOSIDADE:
Em 2017, na Terra Indígena Tupá Nhé É Kretã - Morretes, o cacicado era exercido por uma mulher indígena da etnia Guarani.
| MAI - Museu de Arte Indígena em Curitiba. |
No passado a cestaria era feita para atender as necessidades internas, tendo apenas valor de uso. O contato com sociedade não indígena trouxe a dependência econômica, e esta atividade adquiriu também o valor de troca. Os lucros obtidos com a venda do artesanato são utilizados para aquisição de gêneros alimentícios e eletrodoméstico, entre outros.
| Indígena Kretã Kaingang - Greenpeace Brasil |
É possível observar que, no interior de uma comunidade da
mesma etnia, existem diferenças na organização social e política. Pesquisadores
afirmam que as atividades cotidianas como o tipo de agricultura, a caça, a
cestaria, o cuidado com as crianças, a itinerância entre as áreas indígenas, a
presença de casas de fogo onde vivem os mais velhos, são marcadas por distintivos
étnicos.
Os Kaingang acreditam que as plantas têm inspiração, vida e
poder de cura. Dizem que quando uma criança nasce, recebe uma alma que dá vida
ao corpo, mas como seu espírito é fraco, precisa de cuidados e banhos com ervas
a fim de fortalecer a fixação desse espírito.
Entre os Kaingang, a posse da terra é coletiva, todos usufruem
dos produtos plantados e colhidos nas roças. Toda a comunidade, inclusive as
crianças, participa ativamente das plantações. Os homens e meninos são
responsáveis pelas roçadas, limpeza do terreno, empilhamento, queima, plantio,
capina e colheita. No cultivo da mandioca os homens vão abrindo as covas, as
mulheres colocam ramas e as crianças cobrem os buracos. O plantio de batata-doce
e de abóbora é de responsabilidade das mulheres e das crianças. Na roça, as
mulheres cuidam dos filhos pequenos e cozinham, enquanto os homens estão
trabalhando.
Os Guarani
Antes da colonização, os Guarani
distribuíam-se desde o litoral até o planalto paranaense. Estabeleciam-se em
regiões de floresta tropical e usavam áreas próximas para caça, coleta e
agricultura. Permaneciam, em torno de cinco a seis anos no mesmo local, até
esgotarem os recursos naturais, e retornavam após o restabelecimento da terra.
Normalmente a aldeia era composta
por cinco ou seis casas comunitárias, sem divisões internas, onde viviam cerca
de trinta pessoas, em cada. No interior das habitações e nas áreas periféricas
da aldeia concentravam-se as atividades das mulheres. No centro da aldeia
existia a casa de reza, onde eram realizados os rituais religiosos.
| Indígenas Guaranis residentes no Oeste do Paraná. |
Produziam cerâmica, redes e cestas de fibras e de taquara e fiavam algodão para confecção de roupas. Ainda hoje os Guarani mantêm laços de parentesco e afinidade com aldeias distantes e preservam a língua e a cultura. Algumas comunidades indígenas Guarani do Paraná não falam mais a língua materna, nem praticam a religião tradicional.
Entre os Guarani também existem diferenças na estrutura linguística, costumes, rituais, organização política e social, orientação religiosa, interpretação da realidade e modo de interagir. Portanto, é necessário observar que cada grupo tem suas particularidades.
Entre os Guarani a figura do xamã
(sacerdote, rezador, curador, txeru ou pajé) é importantíssima. Estes se formam
pela inspiração, aprendizagem, iniciação, e, principalmente, pela revelação
divina que acontece quando há a devoção. Após o contato com a sociedade não
indígena, os xamãs passam a ser responsáveis pela religião, enquanto os
caciques e lideranças cuidam da política e demais atividades.
Os Guarani acreditam que Nhanderu
(Deus) os fez especialmente para cantar e dançar. A música, o cantar, o
executar dos instrumentos tem caráter invocatório e tem o papel de atingir a
escuta dos deuses. Por meio do convívio familiar, de jogos e exemplos, a
criança Guarani aprende a conhecer e distinguir os comportamentos considerados adequados
dos desaprovados pelo grupo.
Os Xetá
Desde o final do século XIX,
existem relatos sobre indígenas, denominados Xetá, no centro sul do Paraná,
Este grupo indígena foi oficialmente contatado pelo Serviço de Proteção aos
Índios, atual FUNAI, na região da Serra dos Dourados no noroeste do Paraná, na
década de 1950. Pesquisadores contaram 60 indivíduos Xetá quando realizaram
estudos linguísticos sobre a cultura e a língua dessa etnia. Estudos mais
recentes constataram que a situação social e econômica vivenciada pelos Xetá
naquele momento, justificava-se pelos constantes deslocamentos do grupo,
provocados pela expansão cafeeira.
| Kozác, bem velhinho, ao lado de um indígena Xetá. Acervo do Museu Paranaense. |
O pesquisador tcheco Vladimir
Kozák documentou em detalhes o cotidiano destes povos por meio de filmes,
fotografias, pinturas em tela e desenhos, além de produzir textos e coletar
objetos, que formam o acervo do Museu Paranaense e do Museu de Arqueologia e Etnologia
da UFPR.
A organização social da
comunidade Xetá baseia-se no sistema de parentesco e na divisão sexual do
trabalho. Algumas atividades são exercidas exclusivamente pelos homens como:
caça construção de habitações e armadilhas, produção de instrumentos, além da
segurança e defesa do território. Os meninos Xetá desde muito cedo aprendem com
os pais as atividades consideradas masculinas, principalmente o manejo do arco
e flecha. São consideradas atribuições femininas: preparo do alimento,
transporte de carga e do alimento e cuidado com seus filhos. A coleta,
tecelagem e cestaria são atribuições exercidas por ambos os sexos.
A subsistência dos Xetá era
garantida por meio da caça e da coleta. Sua dieta alimentar baseava-se
principalmente em produtos disponíveis durante o ano todo, como cocos de
palmeiras, frutos e mel de abelhas silvestres. Entre os alimentos constavam
diversas espécies de tubérculos, fungos de árvores, frutos silvestres, banana, jacaratiá, jabuticaba, gabiroba, pitanga. Também faziam parte da
dieta Xetá algumas espécies de insetos, besouros, pirilampos e larvas de troncos
de palmeiras. Estas iguarias são consumidas até hoje, após serem tostadas sobre
a brasa.
| Chefe Xetá capturado por Bigg-Wither nas serras próximas ao Salto da Ariranha no rio Ivaí no dia 17 de agosto de 1873. Fonte: Bigg-Wither (1878). |
Os Xetá caçam ou capturam
diversas espécies de répteis, mamíferos e aves. Entre os animais caçados,
destacam-se a queixada, o caititu, os macacos e aves, como o tucano, arara
jacu e mutum. Nas armadilhas apreendem o tatu, a cotia, a lontra, o quati, o tamanduá,
a jaguatirica, os preás, as antas e as onças, além de cágados, lagartos e
cobras.
Os Xetá apreciam a companhia de
animais, que costumam criar, como gaviões, corujas, morcegos, aves, borboletas,
cigarras e besouros. Na terapêutica tradicional, os Xetá utilizam folhas de erva-mate
misturadas com água, a qual é empregada como unguento ou loção refrescante na
cura de dores musculares, febre, ferimentos e eczemas. Para curar dores de
estômago, fricciona-se o abdômen com as patas das onças, doenças de pele são
tratadas com cinzas de pele de onça, friccionadas sobre o rosto ou corpo do
paciente.
Contra picadas de cobra,
aplicam três torniquetes no membro picado, geralmente a perna. A seguir, uma
série de procedimentos são executados sobre o local da picada: banho com kukuay
(folhas de erva-mate defumadas e secas, socadas no pilão e ingeridas com água)
e suco de palmito, esfregação com cinzas de onça queimado, abanação com pele de
onça ou com gavião vivo.
Por que é importante estudar a
cultura dos povos indígenas nas escolas?
Essa pergunta é muito importante
e levanta diversas questões que passam despercebidas no cotidiano. Na grande
maioria das escolas do país, no dia 19 de abril se comemora o Dia do Índio, que
foi escolhido a partir do Primeiro Congresso Indigenista Interamericano em 1940
(FUNAI 2011, MEC 2020). Mas para a grande maioria das crianças, comemorar esse
dia não é didático e palpável, já que acreditam que esses povos estão vivendo
apenas em regiões distantes, em florestas no Norte e Nordeste do país,
pensamento construído a partir de estereótipos. Esse imaginário não fica
restrito apenas às crianças e acaba se tornando um senso comum.
A valorização dos povos indígenas desde a pré-escola enriquece a visão das famílias trazendo debates sobre preservação ambiental, cultura, educação, valores e respeito às diferenças. Também é importante resgatar a história dos primeiros habitantes do território brasileiro, que muito contribuíram para a cultura atual do país. Os saberes e a cultura tradicional são de suma importância na formação da sociedade brasileira e o contato com esses povos pode gerar um resgate do conhecimento que detêm. Além disso, reafirmar a herança cultural indígena é relevante para reduzir os impactos negativos sobre essas comunidades.
Os povos indígenas possuem conhecimentos acerca dos bens naturais e dos processos ecológicos que proporcionam condições para realizar atividades em consonância com a conservação ambiental. Nesse sentido, é possível dizer, que a aproximação entre esses povos e os cidadãos em geral, pode servir como uma oportunidade para conscientizar a população sobre a relação harmoniosa e equilibrada que os indígenas possuem com o meio ambiente, proporcionando trocas de saberes. A divulgação da cultura indígena pode sensibilizar a população para a importância de viver de forma sustentável e, assim, utilizar práticas conservacionistas e transmitir para as futuras gerações o conhecimento adquirido por esses povos.
A valorização da cultura indígena é um dever de
todos os países do mundo. Nesse sentido, a UNESCO – Organização das Nações
Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, indica que o conhecimento
adquirido pelos povos indígenas são úteis para o desenvolvimento sustentável,
pois afirma que “o respeito aos conhecimentos, às culturas e às práticas
tradicionais indígenas contribui para o desenvolvimento sustentável e
equitativo e para a gestão adequada do meio ambiente’’ (FUNAI 2008, UNESCO
2020, São Paulo 2020).
Aqui deixo uma reflexão: O PROCESSO DE PERDA TERRITORIAL E CONSEQUENTE CONFINAMENTO EM ESPAÇOS EXÍGUOS PELOS INDÍGENAS, IMPÔS PROFUNDAS LIMITAÇÕES À SUA ECONOMIA E ASPECTOS FUNDAMENTAIS DE SUA POLÍTICA E CULTURA. ABORDAR A QUESTÃO DAS TERRAS INDÍGENAS NO BRASIL É TRAZER A PÚBLICO A SITUAÇÃO DESSE POVO, PORTANTO, NÃO CABERIA AOS EDUCADORES AS REFLEXÕES QUE CULMINEM EM PRÁTICAS PEDAGÓGICAS? MAIS ESPECIFICAMENTE NO TRATO DIDÁTICO COM OS CONTEÚDOS RELACIONADOS A HISTÓRIA E CULTURA INDÍGENA, E QUE SEJA FEITO NUMA ABORDAGEM QUE POSSIBILITE À COMUNIDADE ESCOLAR COMPREENDER E VALORIZAR A PRESENÇA E A INFLUÊNCIA DOS INDÍGENAS NO MODO DE VIDA, DE ONTEM E DE HOJE, DOS BRASILEIROS?
Obrigada e bom café.
* Para completar a discussão ouça o podcast idealizado pela criadora desse blog Camila Geissler sobre o uso corriqueiro da palavra ÍNDIO ao dirigir-se a alguma etnia indígena: "índio é genérico!".
* Referências Bibliográficas:
FREIRE, José Ribamar Bessa. Cinco ideais equivocadas sobre os índios.
In: Educação, cultura e relações interétnicas/Ahyas Siss, Aloisio Jorge de
Jesus Monteiro (orgs.);
AMPARO Villa Cupolillo.[et al.]-
Rio de Janeiro: Quartet: EDUR, 2009. Agora
são outros 500. (Texto base da Semana dos povos indígenas). In: Brasília:
CIMI-CNBB, 1998.
BRASIL. Ministério da Educação e
do Desporto. Referencial curricular
nacional para as escolas indígenas. Secretaria de Educação Fundamental.-
Brasília: MEC/SEF, 1998.
BANIWA, Gersem. O índio brasileiro: o que você precisa
saber sobre os povos indígenas no Brasil de hoje. Brasília,
MEC/SECAD/LACED/Museu Nacional, 2006.
MOTA, Lúcio Tadeu. Os Xetá no vale do rio Ivaí 1840-1920.
Maringá: Universidade Estadual de Maringá, 2013, 209 págs.
* Sites:
FUNAI – Fundação Nacional do Índio (2020a). Quem são. Disponível
em: https://www.gov.br/funai/pt-br/atuacao/povos-indigenas/quem-sao
Acesso em: 01 de dez. de 2022.
FUNAI – Fundação Nacional do Índio – Direitos Sociais (2020). Disponível em: https://www.gov.br/funai/pt-br/atuacao/povos-indigenas/direitos-sociais Acesso em: 01 de dez. de 2022.
FUNAI – Legislação Indigenista (2008) Disponível em: https://www.gov.br/funai/pt-br/acesso-a-informacao/legislacao Acesso em: 02 de dez. de 2022.
IEPÉ – Instituto de Pesquisa e Formação Indígena (2020) Educação e
Valorização Cultural. Disponível: https://editorarealize.com.br/editora/anais/conedu/2020/TRABALHO_EV140_MD1_SA11_ID3627_29092020193759.pdf Acesso em: 03 de dez. de 2022.
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2020) Indígenas.
Disponível em: https://indigenas.ibge.gov.br/
Acesso em: 03 de dez. de 2022.
MEC – Ministério da Educação (2020) Dia do Índio. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/component/tags/tag/42671-dia-do-indio
Acesso em: 04 de dez. de 2022.
ONU – Organização das Nações Unidas (2017) Disponível em: https://nacoesunidas.org/em-marica-rj-tribo-usa-idioma-guarani-para-fortalecer-cultura-indigena/
Acesso em: 04 de dez. de 2022.
Pensamento Verde (2013) Disponível em: https://www.pensamentoverde.com.br/meio-ambiente/indios-convivem-natureza-licoes-vida-sustentavel/ Acesso em: 04 de dez. de 2022.