Como vocês estão?
Hoje trago pra vocês uma breve pesquisa de como as práticas culturais africanas foram decisivas para os sabores encontrados hoje na gastronomia de vários estados brasileiros. E aqui, explanarei sobre a presença da culinária africana no Brasil e suas ressignificações através da presença majoritária da mulher negra, e como essas mulheres usaram-se desse setor para colocar-se no mercado de trabalho e trazer o sustento para a sua família.
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A partir das vivências e religiosidades africanas a culinária afro-brasileira utilizou elementos religiosos de matrizes africanas para criar e ressignificar alimentos, temperos, técnicas de preparo e hábitos alimentares como possibilidades de símbolos identitários, fonte de renda, ofício e profissionalização que permitem a preservação dos cultos religiosos e a autonomia financeira de muitas mulheres negras.
O Brasil é, literalmente, um prato cheio àqueles que desejam desbravar a cultura por meio de seus sabores. Afinal, comer é também um ato social e a comida revela os hábitos e a identidade do povo de cada região. Também, a comensalidade é um ato carregado de simbologia e de extrema importância na cultura africana que foi transmitida para a cultura afro-brasileira.
Significado de Comensalidade:A COMENSALIDADE acompanha a sociedade háanos. Derivado do latim – "mensa" –, o termosignifica conviver à mesa, que envolve nãosomente o padrão alimentar e o que se come,mas principalmente o modo como se come.
A Bahia, denominada "África negra" por conter o maior contingente de pessoas negras, fruto da desumana diáspora africana, apresenta, também, mais fortemente a presença dessas heranças culturais que emergem das vestuários, estética, linguagem e na culinária e por isso uma:
Viagem a Bahia é sinônimo de comilança. O principal aperitivo é o bolinho que ficou conhecido em todo o Brasil. Quem já não ouviu falar no famoso acarajé? Turista que vem à Bahia e não prova o delicioso bolinho de feijão frito no dendê está perdendo a chance de experimentar a iguaria mais típica do estado. (PORTAL GELEDÉS, 2011)
Desde séculos passados, praticavam esse ofício, saber aprendido dentro dos espaços religiosos e que também eram praticados para ganhar dinheiro. As mulheres negras, "as ganhadeiras", carregavam em seus tabuleiros a força e a coragem que caracterizam o empreendedorismo e com obstinação comercial conseguiam ultrapassar obstáculos de toda sorte e, muitas vezes, obtinham não só o suficiente para pagar a seus proprietários, mas também serviam para comprar a sua liberdade, com a aquisição da própria Carta de Alforria.
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| Baiana do Acarajé IPHAN - Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional |
A resistência das baianas de acarajé materializa-se, inclusive na defesa do vocábulo Acarajé, revelando o cunho religioso desse saber e a importância da preservação da cultura africana e afro-brasileira, pois o acarajé é uma comida de orixá, comida sagrada dedicada às yabás Iansã/Oyá (Candomblé de Ketu) e Kaiongo (Candomblé de Angola).
Assim, as mulheres negras ao defenderem o seu ofício de baiana de acarajé, defendem as suas próprias referências culturais e identidades construídas por séculos dentro dos terreiros, das convivências familiares e das ruas.
Nessa nova ordem social emergente, onde as mulheres negras estão em outro lugar de reivindicações, os mitos religiosos afro-brasileiros podem alicerçar uma lógica de poder, fortalecer identidades fragmentadas e consolidar autoconceitos positivos. E são nas possibilidades de profissionalização que surgem dentro dos terreiros que muitas mulheres fizeram-se ótimas cozinheiras, costureiras, arrumadeiras, babás, merendeiras, comerciantes, cantoras, poetizas, princesas, guerreiras, rainhas.
A cultura, seja na educação ou nas ciências sociais, é mais do que um conceito acadêmico. Ela diz respeito às vivências concretas dos sujeitos, à variabilidade de formas de conceber o mundo, às particularidades e semelhanças construídas pelos seres humanos ao longo do processo histórico e social. (GOMES, 2003, p.75)
Dentre os pratos de matriz africana que fazem parte da alimentação dos brasileiros, cito aqui:

(Clique nas imagens para conferir as receitas!)
Aqui deixo uma reflexão: O OFÍCIO DAS BAIANAS DE ACARAJÉ TORNOU-SE PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL DO BRASIL, EM AGOSTO DE 2005 PELO INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN) E É RECONHECIDA COMO UMA PROFISSÃO JÁ REGULAMENTADA DESDE 1998 POR DECRETO MUNICIPAL.
A RESISTÊNCIA DAS BAIANAS DE ACARAJÉ FEZ-SE SENTIR FORTEMENTE NA DEFESA DA PROFISSÃO E DA VINCULAÇÃO DESSE SABER À RELIGIÃO DO CANDOMBLÉ, PORÉM AINDA FALTAM POLÍTICAS PÚBLICAS E APOIO ESTATAL PARA A MANUTENÇÃO E CONTINUIDADE DESSA PROFISSÃO. OS DESRESPEITOS ÀS MULHERES NEGRAS E AS DIFICULDADES PARA O SUSTENTOS DAS SUAS FAMÍLIAS E PROFISSIONALIZAÇÃO NÃO SE DISTANCIAM MESMO APÓS SÉCULOS DE HISTÓRIA, QUE COMO OUTRAS NEGRAS DE GANHO DO SÉCULO XIX, NAS RUAS DE SALVADOR TAMBÉM LUTAVAM PELA SUA AUTONOMIA ECONÔMICA E PELO DIREITO DE EXERCER A SUA ATIVIDADE PROFISSIONAL.
Obrigada e bom café.
* Para completar a discussão ouça o Podcast: "Mulheres Negras no Mercado de Trabalho: Imersão, Dificuldades e Desigualdade".
* Referências Bibliográficas:
BRASIL. Instituto de Preservação Histórico Nacional. OYÀ DIGITAL. Disponível em http://portal.iphan.gov.br/noticias/detalhes/2365. Acesso em: 11 nov. 2021.










