Como vocês estão?
Hoje trago pra vocês um pouco sobre um traje tradicional do continente africano: a Kanga!
PEGUEM SUAS XÍCARAS DE CAFÉ E VENHAM COMIGO!!!
"O vestuário é palavra, linguagem, pois manifesta significados: uma identidade social e uma individualidade(...). Em suma, o vestuário é o homem, o que ele quer informar como sendo ele"
Margarida Maria Tadonni Petter (1994)
Cito, como exemplo, as decorações externas de habitações Haussa e a similaridade com os desenhos de formas bordadas em panos (Eicher, 1969, p.86). A visão de um mercado africano, em Acra, Lagos, ou Maputo nos atrai pelo despertar dos sentidos, seja por meio das imagens de mulheres e homens vestidos com panos brilhantes ou incontáveis peças coloridas e estampadas expostas nos mais diversos padrões.
Além dessa realidade tátil e visual intensa, há interessantes performances criativas que podemos observar nas formas de manipular, mostrar, vender e comprar. São locais fervilhantes onde os últimos discursos sociais circulam, e os panos de produção industrial são recorrentes nesses universos.
Em um dos lados das bordas da estampa das kangas há, geralmente, um provérbio grafado na língua nativa. As primeiras referências da inclusão dessas formas expressivas nos tecidos datam do início do século XX e diz-se que foram criadas por um antigo comerciante têxtil chamado H.E.Abdullah Kaderdina. Nas culturas africanas, dada a centralidade da tradição oral, os provérbios aparecem como formas importantes de comunicação, atuando como estratégias de discurso e se entrelaçando na vida cotidiana.
Há a importância e força da palavra falada, ao mesmo tempo em que o respeito ao silêncio é também de fundamental. As mensagens inseridas nas kangas são jogos de palavras e situações de humor e ironia, geralmente relativos a relações conjugais e entre esposas. São conteúdos que fazem parte do cotidiano local e inerentes a relações públicas ou particulares. Além da capacidade comunicativa, os provérbios também potencializam a venda das peças, dado que as mulheres escolhem suas kangas de acordo com quatro critérios: o provérbio, a qualidade do tecido, a impressão, e finalmente, o design (Hilger, 1995, p. 45).
Segundo Hilger (1995), o nome kanga deriva do kiswahili e indica um pássaro preto e branco, que constantemente emite sons como um tagarela. A história oral relaciona esses panos à figura da mulher, devido aos designs de pequenos pontos e flores e também dada a semelhança na intensidade da fala, entre o pássaro e a mulher. Estas, por sua vez, guardam os tecidos com zelo e os têm como enxovais e dotes.
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| Capulanas se transformam em peças modernas nas mãos do artista plástico Jamgo |
Esses panos, também chamados de capulanas, kangas, lesos, entre outras denominações, adquirem uma identidade que, a respeito das origens, constitui os traços peculiares das culturas locais. Assim, os tecidos adquirem uma identidade específica no local onde fincam terreno: é o caso das capulanas em território moçambicano, tecidos presentes em esferas fundamentais da vida cotidiana – da instituição matrimonial à fúnebre.
Originados na mistura de culturas do oceano Índico com as culturas locais, podemos considerar que as kangas e capulanas são fortes evidências da influência de variadas partes do litoral do Índico, confluindo Índia, Indonésia e Oriente Médio. A ideia de uma semelhança (no tamanho e na forma de vestir) com os chamados sarongs sugere esta realidade. Segundo Parkin (2005), os designs abstratos e o uso emblemático de figuras de frutas, incluindo abacaxis e peras, assim como produtos como castanhas, apontam para essa comunicação estreita.
Aqui lanço uma questão a ser pensada criticamente: TENDO EM MENTE A INFESTAÇÃO DE GRUPOS E PESSOAS QUE FAZEM USO DE ELEMENTOS DE OUTRAS CULTURAS OU ETNIAS, COMO APROPRIAÇÃO CULTURAL, VOCÊ ACHA CORRETO TAL AÇÃO? VOCÊ ACREDITA QUE SE UMA PESSOA CALCAZIANA VESTIR-SE COM UMA KANGA SUAHILE, ELA ESTÁ HOMENAGEANDO OU SE APOSSANDO DE TAL CUSTUME?
Sinta-se a vontade para trazer o seu posicionamento aqui nos comentários.
Obrigado e bom café.
* Para completar a discussão ouça o Podcast: "Um Pouco Sobre o Turbante Usado Pelas Sul-africanas e o Seu Sucesso Pelo Globo: Apropriação ou Acessório de Moda?'
https://soundcloud.app.goo.gl/pcCounLjTKYKajP78
* Referências Bibliográficas:
BISILLIAT, Maureen. África. Moda, cultura e tradição. São
Paulo: Empresa das Artes e Editora SENAC. 1993.
BORTOLOZO, Luciana Ferreira. A polêmica sobre a apropriação cultural e a necessidade do debate fora
das redes. Consultor Jurídico, publicado em 17 de dezembro de 2016. Disponível em:
EICHER, Joanne Bulbolz. African dress – a selected and annotated bibliography of subsaharam countries. Michigan: African Studies Center. Department of Textiles, Clothing and Related Arts , 1969.
GOMES, Nilma Lino. Corpo e cabelo como símbolos da identidade negra. Ação Educativa. São Paulo,
2002. Disponível em:
HILGER, Julia. The kanga: An example of east african textile design. In: Pinton, John. The art of african textiles – technology, tradition and lurex. London: Lund Humphries Publishers, 1995.





Olá Camila Geissler! ótima reflexão e produção de texto. Parabéns pelo desempenho demostrado a mais este desafio. Parabéns pelo desvelado cuidado com que tratas todos os temas do Curso de História... assim se constrói uma historiadora!
ResponderExcluirEm seu trabalho o desconhecimento acerca das kangas e capulanas revelam a beleza singular das cores que sempre se referem a liberdade. Liberdade de ser, liberdade de exteriorizar, liberdade de sentir, liberdade... reconhecer a africanidade do Continente africano presente em tantas regiões do planeta amplia a nossa concepção de mundo nos permitindo perceber aspectos importantes das relações humanas, expões o lado sombrio da ignorância e da intolerância...
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