segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Gastronomia Dos Orixás: Um Prato Cheio de Cultura Afro-Brasileira Oferecido pelas Mulheres

Hello Bloggers!!!
Como vocês estão?

    Hoje trago pra vocês uma breve pesquisa de como as práticas culturais africanas foram decisivas para os sabores encontrados hoje na gastronomia de vários estados brasileiros. E aqui, explanarei sobre a presença da culinária africana no Brasil e suas ressignificações através da presença majoritária da mulher negra, e como essas mulheres usaram-se desse setor para colocar-se no mercado de trabalho e trazer o sustento para a sua família.


PEGUEM SUAS XÍCARAS DE CAFÉ E VENHAM COMIGO!!! 


    A partir das vivências e religiosidades africanas a culinária afro-brasileira utilizou elementos religiosos de matrizes africanas para criar e ressignificar alimentos, temperos, técnicas de preparo e hábitos alimentares como possibilidades de símbolos identitários, fonte de renda, ofício e profissionalização que permitem a preservação dos cultos religiosos e a autonomia financeira de muitas mulheres negras.

    O Brasil é, literalmente, um prato cheio àqueles que desejam desbravar a cultura por meio de seus sabores. Afinal, comer é também um ato social e a comida revela os hábitos e a identidade do povo de cada região. Também, a comensalidade é um ato carregado de simbologia e de extrema importância na cultura africana que foi transmitida para a cultura afro-brasileira.

   Significado de Comensalidade:
A COMENSALIDADE acompanha a sociedade há 
anos. Derivado do latim – "mensa" –, o termo 
    significa conviver à mesa, que envolve não 
    somente o padrão alimentar e o que se come, 
    mas principalmente o modo como se come.

     A Bahia, denominada "África negra" por conter o maior contingente de pessoas negras, fruto da desumana diáspora africana, apresenta, também, mais fortemente a presença dessas heranças culturais que emergem das vestuários, estética, linguagem e na culinária e por isso uma:

Viagem a Bahia é sinônimo de comilança. O principal aperitivo é o bolinho que ficou conhecido em todo o Brasil. Quem já não ouviu falar no famoso acarajé? Turista que vem à Bahia e não prova o delicioso bolinho de feijão frito no dendê está perdendo a chance de experimentar a iguaria mais típica do estado. (PORTAL GELEDÉS, 2011)

    Baseando-se em pesquisas históricas já realizadas (SOARES, 1996), as negras de ganho também denominadas negras ganhadeiras e/ou vendedeiras exerciam o comércio nas cidades do Brasil colonial e que, com o seu trabalho, com as suas iguarias, obtinham bons lucros para seus senhores e suas senhoras tornando-se valiosas e aumentando o seu custo de venda no mercado escravagista. Muitas dessas negras ganhadeiras percorriam a cidade vendendo as comidas de orixás.

    Desde séculos passados, praticavam esse ofício, saber aprendido dentro dos espaços religiosos e que também eram praticados para ganhar dinheiro. As mulheres negras, "as ganhadeiras", carregavam em seus tabuleiros a força e a coragem que caracterizam o empreendedorismo e com obstinação comercial conseguiam ultrapassar obstáculos de toda sorte e, muitas vezes, obtinham não só o suficiente para pagar a seus proprietários, mas também serviam para comprar a sua liberdade, com a aquisição da própria Carta de Alforria. 

Baiana do Acarajé
IPHAN - Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional
     Comer acarajé, abará, mungunzá, mingau de tapioca, bolinho de estudante, arroz doce, vatapá, caruru, farofa, moqueca com pimenta e dendê faz parte da cultura afro-baiana. O acarajé enquanto símbolo da cultura afro-brasileira foi tombado, desde 2004 alçando o status de bem imaterial, registrado no "Livro dos Saberes" do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN. 

    A resistência das baianas de acarajé materializa-se, inclusive na defesa do vocábulo Acarajé, revelando o cunho religioso desse saber e a importância da preservação da cultura africana e afro-brasileira, pois o acarajé é uma comida de orixá, comida sagrada dedicada às yabás Iansã/Oyá (Candomblé de Ketu) e Kaiongo (Candomblé de Angola).

    Assim, as mulheres negras ao defenderem o seu ofício de baiana de acarajé, defendem as suas próprias referências culturais e identidades construídas por séculos dentro dos terreiros, das convivências familiares e das ruas.

    Nessa nova ordem social emergente, onde as mulheres negras estão em outro lugar de reivindicações, os mitos religiosos afro-brasileiros podem alicerçar uma lógica de poder, fortalecer identidades fragmentadas e consolidar autoconceitos positivos. E são nas possibilidades de profissionalização que surgem dentro dos terreiros que muitas mulheres fizeram-se ótimas cozinheiras, costureiras, arrumadeiras, babás, merendeiras, comerciantes, cantoras, poetizas, princesas, guerreiras, rainhas.

A cultura, seja na educação ou nas ciências sociais, é mais do que um conceito acadêmico. Ela diz respeito às vivências concretas dos sujeitos, à variabilidade de formas de conceber o mundo, às particularidades e semelhanças construídas pelos seres humanos ao longo do processo histórico e social. (GOMES, 2003, p.75)

    Dentre os pratos de matriz africana que fazem parte da alimentação dos brasileiros, cito aqui:


Feijoada: Um dos pratos mais populares do país, consiste em uma mistura de feijão preto cozido e partes menos nobres do porco como rabo e orelha, além de linguiça e carne seca. Uma das versões propagadas sobre a origem do prato é de que seria uma criação dos escravos, a partir dos ingredientes desprezados pelos seus senhores.
Acarajé: comida típica da Bahia, é feito a partir do bolinho de feijão fradinho preparado de maneira artesanal, na qual o feijão é moído em um pilão de pedra, temperado e posteriormente frito no azeite de dendê fervente. Pode ser cortado ao meio e recheado. Entre os recheios mais comuns estão vatapá, caruru, camarão refogado, pimenta e salada de tomates verde e vermelho com coentro. O nome dessa comida é uma variação linguística dos termos “acará” (bola de fogo) e “jé” (comer), ou seja, “comer bola de fogo”. Sua origem é explicada por um mito sobre a relação de Xangô com suas esposas, Oxum e Iansã. O bolinho se tornou, assim, uma oferenda a esses orixás. 


Vatapá: criado por influência da culinária africana, trazida pelos escravos, é um alimento de consistência cremosa e cuja receita tem variações. Uma das mais comuns, típica da Bahia, é feita à base de camarão seco, pão, leite de coco, amendoim e castanha de caju. O preparo pode variar de estado para estado.


(Clique nas imagens para conferir as receitas!)


    Aqui deixo uma reflexão: O OFÍCIO DAS BAIANAS DE ACARAJÉ TORNOU-SE PATRIMÔNIO CULTURAL IMATERIAL DO BRASIL, EM AGOSTO DE 2005 PELO INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN) E É RECONHECIDA COMO UMA PROFISSÃO JÁ REGULAMENTADA DESDE 1998 POR DECRETO MUNICIPAL. 

    A RESISTÊNCIA DAS BAIANAS DE ACARAJÉ FEZ-SE SENTIR FORTEMENTE NA DEFESA DA PROFISSÃO E DA VINCULAÇÃO DESSE SABER À RELIGIÃO DO CANDOMBLÉ, PORÉM AINDA FALTAM POLÍTICAS PÚBLICAS E APOIO ESTATAL PARA A MANUTENÇÃO E CONTINUIDADE DESSA PROFISSÃO. OS DESRESPEITOS ÀS MULHERES NEGRAS E AS DIFICULDADES PARA O SUSTENTOS DAS SUAS FAMÍLIAS E PROFISSIONALIZAÇÃO NÃO SE DISTANCIAM MESMO APÓS SÉCULOS DE HISTÓRIA, QUE COMO OUTRAS NEGRAS DE GANHO DO SÉCULO XIX, NAS RUAS DE SALVADOR TAMBÉM LUTAVAM PELA SUA AUTONOMIA ECONÔMICA E PELO DIREITO DE EXERCER A SUA ATIVIDADE PROFISSIONAL.


Obrigada e bom café. 


* Para completar a discussão ouça o Podcast: "Mulheres Negras no Mercado de Trabalho: Imersão, Dificuldades e Desigualdade".

https://soundcloud.com/camila-geissler-476096965/mulheres-negras-no-mercado-de?si=1bce006f4a8a4ef3a2c69497ca45e834


* Referências Bibliográficas:

BAIANAS do acarajé. Disponível em http://portal.iphan.gov.br/pagina/detalhes/58. Acesso em: 09 nov. 2021.

BRASIL. Instituto de Preservação Histórico Nacional. OYÀ DIGITAL. Disponível em http://portal.iphan.gov.br/noticias/detalhes/2365. Acesso em: 11 nov. 2021.

DIAS, Maria Odila Leite da Silva. Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX. 2ª Edição revisada. São Paulo: Brasiliense, 1995.

GOMES, Nilma Lino. Cultura Negra e Educação. Revista Brasileira de Educação, 2003. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbedu/a/XknwKJnzZVFpFWG6MTDJbxc/?lang=pt. Acesso em: 10 nov. 2021.

MIRANDA, Karoline Nascimento. Mulher negra, trabalho e resistência: escravizadas, libertas e profissões no século XIX. Disponível em: https://core.ac.uk/download/pdf/268353837.pdf. Acesso em: 11 nov. 2021.

PORTAL GELEDÉS. Influência da Cultura Africana na Nossa Alimentação. Disponível em: https://www.geledes.org.br/influencia-da-cultura-africana-na-nossa-alimentacao/. Acesso em: 10 nov. 2021.

SOARES, Cecilia Moreira. As Ganhadeiras: mulher e resistência negra em Salvador no século XIX. In AFRO-ÁSIA, Nº 17, pp. 57-71; Centro de Estudos Afro-Orientais, Bahia, Salvador: EUFBA, 1996.

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